Moacir Santos, 100 anos

O gênio pernambucano Moacir Santos (1926 – 2006) completaria 100 anos em 26 de julho de 2026. Em agosto, sua morte faz 20 anos. Seu legado, no entanto, não desaparece e reverbera cada vez mais. Leia texto sobre sua obra-prima de estreia “Coisas” (1965), um dos discos mais influentes da música brasileira e referência da fusão de ritmos afro-brasileiros com o jazz

Por Ramiro Zwetsch
Ilustração: MZK

Fala-se muito em “Chega de Saudade” (João Gilberto, 1959) e “Clube da Esquina” (Milton Nascimento e Lô Borges, 1972). Bossa nova, Jovem Guarda, Tropicália, Mangue Beat e o rap nacional são reconhecidos como movimentos e / ou tendências que transformaram a música brasileira. Identifica-se Luiz Gonzaga como o rei do baião, Pixinguinha como um revolucionário do choro, Elis Regina como a maior intérprete do Brasil e Jorge Ben como um dos compositores mais influentes da MPB. Ainda é preciso, no entanto, enfatizar a importância de Moacir Santos (1926 – 2006) e de sua obra-prima “Coisas”.

Lançado em agosto de 1965 pelo selo Forma, o álbum é um acontecimento sem precedentes na música brasileira – ainda que guarde significativa influência do trabalho do maestro mineiro Abigail Moura (1904 – 1970) à frente da Orquestra Afro-Brasileira, que foi pioneira em combinar a formação sinfônica com os toques desenvolvidos nos terreiros de umbanda e candomblé, atuou em seu primeiro período entre 1942 e 1970 e arrebatou a apreciação de Moacir que, segundo consta em sua biografia “Moacir Santos – ou os Caminhos de um Músico Brasileiro” (de Andrea Ernest Dias, 2014, editoras Cepe e Folha Seca), frequentava os ensaios da Orquestra e absorveu as referências.

“Coisas” reúne dez composições instrumentais de Moacir que impressionam pela sofisticação dos arranjos, a beleza das melodias, a malha instrumental em que cada elemento representa um ponto de costura para o outro e a potência rítmica sustentada nas batidas originais de gêneros ancestrais afro-brasileiros. Embora navegue entre o popular e o erudito, é pertinente afirmar que se trata de um dos discos mais influentes do jazz brasileiro. Se dependesse exclusivamente da opinião de quem escreve esse texto, não haveria plural na frase anterior – quatro dos cinco entrevistados desta reportagem, no entanto, cravaram a mesma afirmação: “é um dos”, para frustração deste jornalista.

Há consenso de que o álbum é um fundamento da arquitetura que ergue os pilares da música instrumental brasileira. “‘Coisas’ é uma obra de arte que fala muito sobre a identidade brasileira. Quando penso em ‘identidade brasileira’, penso no suingue e nos vários ritmos que temos no Brasil. Penso no calor, em como esse país é tropical e como tudo isso faz parte da nossa construção como sociedade. Com certeza, uma das coisas mais incríveis nesse disco é como Moacir consegue traduzir a nossa identidade em forma de música. A capacidade dele de levar os ritmos de matriz africana para o ambiente de orquestra é revolucionário e genial”, diz o pianista e compositor pernambucano Amaro Freitas, nome de destaque do jazz contemporâneo mundial.

Andrea Ernest Dias engrossa o coro de Amaro. “‘Coisas’ foi o primeiro álbum inteiramente autoral de Moacir Santos e foi construído com um pensamento estético e uma técnica musical avançados, visando a deixar explícito o compositor, para além da sua alta experiência como arranjador”, observa. “As suas escolhas sonoras fazem referência a sua própria biografia e ao desenvolvimento do seu gosto musical. Ali ouvimos, com concisão, a sonoridade das bandas de música e jazz bands de sua infância e adolescência no sertão nordestino, das grandes orquestrações assimiladas em seus tempos na Rádio Nacional, e do jazz, que o conduziu estilisticamente a partir de então”.

Além de biógrafa de Moacir, Andrea é flautista e integrante da Banda Ouro Negro – formação importante para uma maior divulgação da obra do maestro pernambucano. Organizada pelo violonista Mario Adnet e pelo saxofonista Zé Nogueira (1955 – 2024), essa orquestra realizou a proeza de levar o repertório de “Coisas” para os palcos, em 2005, sob orientação de seu próprio autor. As apresentações não só lavaram a alma dos espectadores como concedeu a Moacir um merecido reconhecimento tardio em seu país de origem. Residente dos Estados Unidos desde 1967, ele foi ovacionado e reverenciado em vida.

Antes dos show, Adnet e Nogueira já haviam gravado e lançado “Ouro Negro” em 2001 – com o repertório de “Coisas”, em novas versões – e supervisionaram a reedição do álbum de 1965 em CD, em 2004. Também em 2005, lançaram o disco “Choros e Alegria”, outro presente para Moacir e seus fãs, com composições concebidas, em sua maioria, nos anos 40.

“‘Coisas’ é um álbum atemporal. Mostra um compositor que estava preocupado em fazer arte, em realizar música em um alto nível artístico e criativo”, analisa Adnet. “Posso imaginar a batalha dele para conseguir realizar esse trabalho, com composições que ele tinha desde a década de 50 – muita coisa também do fim da década de 40. Ele apresenta ideias ultracontemporâneas para a época, muito à frente do tempo e com arranjos sofisticados. Você percebe o cuidado dele com cada notinha que ele fazia. Ele sempre escrevia as linhas de baixo e isso era fundamental, porque é um dos elementos que define o suingue da música e trazia opções para percussão e bateria.”

Moacir Santos encontrou na gravadora Forma o ambiente ideal para realizar seu projeto pessoal com todo o requinte que ele imaginou. Fundada pelo produtor musical Roberto Quartin e seu sócio Wadi Gebara, a gravadora lançou 22 álbuns entre 1964 e 1966 e seu catálogo é reconhecido pela estética da ousadia e inovação.

“Esse disco só poderia ser feito na Forma. O Quartin e o Gebrara gostavam muito do Moacir, inclusive foram alunos dele, e sabiam que o disco dele seria importante”, observa Renato Vieira, jornalista e autor do livro “Tempo Feliz – a História da gravadora Forma”. “O disco foi muito bem recebido. O Sílvio Túlio Cardoso, no Globo, e o Sérgio Porto, no Última Hora, falaram muitíssimo bem do disco e da pessoa do Moacir na época do lançamento. Mas isso não se revertia em venda. O disco da Forma que mais vendeu foi ‘O Som Definitivo’ (1966), do Quarteto em Cy e o Tamba Trio, que vendeu 2 mil cópias. ‘Coisas’, portanto, vendeu menos do que isso – quantidade que não se pagava o investimento feito. A Forma prezava pela ousadia, sem medo de fazer algo que não desse retorno. Acho que ‘Coisas’, talvez junto com ‘Os Afro-Sambas’ (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1966), seja o disco mais perene da Forma.”

Mesmo antes de seu lançamento em 1965, o álbum já tinha deixado alguns rastros em discos de outros artistas. Aluno de Moacir, o violonista Baden Powell gravou “Coisa Nº 1” e “Coisa Nº 2” no álbum “Baden Powell Swings With Jimmy Pratt”, trabalho em parceria com o baterista estadunidense de 1963. No ano seguinte, muitas “coisas” apareceram nos álbuns icônicos da emergente cena de samba-jazz. Edison Machado, no icônico “Edison Machado é Samba Novo”, gravou “Coisa Nº1” e “Coisa Nº 4 – o mesmo tema, aliás, aparece também nos álbuns “Você Ainda Não Ouviu Nada!” (Sérgio Mendes e Bossa Rio, que também tem uma versão para “Coisa Nº 2”), “Os Cobras” (da banda homônima), “Os Ipanemas” (da banda homônima), além de ter versões com letra registradas por Nara Leão (também em 1964) e Wilson Simonal (em 1965).

Não é exagero dizer, portanto, que “as coisas” de Moacir já eram clássicos do samba-jazz antes mesmo do lançamento do álbum que trouxe seus arranjos definitivos. Nara Leão e Sérgio Mendes, diga-se, também foram alunos do maestro pernambucano – bem como João Donato, Paulo Moura, Roberto Menescal, as integrantes do Quarteto em Cy, entre outros. Além disso, ele assina arranjos em “Você Ainda Não Ouviu Nada!” e Edison Machado é Samba Novo”. Estes dois álbuns, aliás, são assinalados por Andrea Ernest Dias e Mario Adnet como os outros grandes do jazz brasileiro. O violonista acrescenta “O Som”, que o saxofonista J.T. Meirelles gravou com o conjunto Copa 5, e Renato Vieira aponta “Embalo”, do pianista Tenório Jr, como outro concorrente ao pódio – ambos também clássicos do samba-jazz do espantoso ano de 1964.

“‘Coisas’, entretanto, chega como uma novidade nesse ambiente dos anos 60. Uma novidade que, ao mesmo tempo que desafia, acolhe os ouvintes por reconhecermos nela os elos que nos conformam como brasileiros, ou, como diria Letieres Leite, como afro-brasileiros. E também, como disse o Zuza Homem de Mello, as consequências dessa audição seriam ainda mais bem percebidas muito tempo depois. E é disso que estamos falando, ao comemorarmos os 60 anos dessa joia musical que todos herdamos”, observa Andrea. “‘Coisas’ aparece como algo ainda diferente desses outros grandes discos do samba-jazz, mas que de alguma forma se dialogavam. É especial, é mais sofisticado porque não é um jazz solto – é um jazz todo arranjado, inclusive para as peças de bateria e percussão. Tudo é pensado, diferente de um jazz livre em cima da batida do samba. Ele traz uma linguagem muito definida em termos rítmicos, permite mais sofisticação”, acrescenta Adnet.

“Coisas” não garantiu, no entanto, que Moacir desfrutasse de um cenário promissor para a construção de sua carreira no Brasil. Em 1967, o maestro fez suas malas e foi morar nos Estados Unidos com sua companheira de uma vida inteira, Cleonice Santos – com quem viveu desde 1945 até sua morte, em 2006. Lá, lançou quatro álbuns nos anos 70, os três primeiros pelo prestigiado selo de jazz Blue Note. Apesar do mesmo nível de excelência de composição e arranjos, estes álbuns não apresentam a ênfase no acento afro que caracteriza seu trabalho de estreia e, portanto, soam menos inovadores.

60 anos depois, “Coisas” resiste ao tempo como uma unanimidade entre os músicos – e não só os brasileiros. O trompetista e compositor estadunidense Wynton Marsalis é um fã notório do pernambucano. Em entrevista a este repórter em 2019, na ocasião da turnê de sua Lincoln Center Jazz Orquestra em São Paulo, ele declarou sua admiração. “As escolas brasileiras deveriam criar um concurso de música com o nome dele. É um grande músico, um grande artista, de um nível muito alto. Sua música é tão linda, cheia de amor e vida. Ele merece muito ser reconhecido porque sua obra é inacreditável”, disse o músico estadunidense, à época. Marsalis, inclusive, participa da gravação de “Choros e Alegria”, com um solo de trompete em “Rota Infinita”.

O maestro baiano Letieres Leite é outro que reverenciava Moacir. Em 2017, ele realizou com sua Orkestra Rumpilezz dois shows com novos arranjos para sete faixas do repertório de “Coisas”. “Na música do maestro Moacir, uma das suas mais impactantes características é a presença da música afro-brasileira – notadamente no álbum ‘Coisas’. A Orkestra Rumpilezz, que tem na sua principal fonte composições ligadas ao universo das matrizes africanas no Brasil (em especial na Bahia), reconhece no trabalho do maestro Moacir forte inspiração e busca com este novo trabalho uma interpretação autoral deste tão emblemático disco”, declarou o baiano, em 2017. “O maior diferencial deste trabalho é em relação aos arranjos, pois a ideia é não replicarmos as partituras originais e sim criar arranjos originais. Desejamos desta forma conectar a obra do maestro com o universo percussivo da música afro-baiana, sem que com isso se perca as informações substanciais que caracterizam sua música.”

Em 2022, foi lançado o álbum “Moacir de Todos os Santos”, com as regravações de Letieres Leite e da Orkestra Rumpilezz registradas em estúdio, e o espírito de “Coisas” ressurgiu revigorado pelo axé dos toques de terreiro da Bahia.

Com tamanha influência e legado, é de se estranhar que Moacir não seja tão conhecido como, por exemplo, Tom Jobim. A dimensão de sua obra e sua genialidade como compositor deveriam ser suficientes para alçá-lo ao topo da música brasileira. Em nível de excelência, ele está entre os maiores. Sua pouca popularidade, no entanto, é incompatível com sua grandeza.

“Apesar do Brasil ter sua cultura praticamente baseada na cultura negra, nunca foi fácil para pessoas negras brasileiras que tiveram uma carreira artística – como Moacir, Alaíde Costa, Dom Salvador, Pixinguinha, Johnny Alf e tantos outros. Até hoje, quantos maestro pretos brasileiros nós conhecemos? Quantos pianistas pretos brasileiros tem uma carreira considerável fora e dentro do Brasil? Esse cara é meu herói, mas não foi nada fácil para ele”, observa Amaro Freitas. A análise encontra eco na opinião do compositor Nei Lopes – autor de cinco letras para as versões cantadas de “Ouro Negro”. “O maestro era um ‘negão’, que no Rio chegou a morar no subúrbio. Na Rádio Nacional, onde ele trabalhou, os sobrenomes dos maestros eram quase todos de origem italiana, e os locutores quando anunciavam, só faltavam ‘bater continência’. Se ser ‘afrodescendente’, como eu, até hoje ainda é complicado, imagine um ‘negão’ maestro numa emissora de alcance nacional, nos anos 50… No projeto ‘Ouro Negro’, a orquestra era a fina flor e tinha não sei quantos músicos. Mas o único negro da orquestra era o percussionista (claro!), Marçalzinho.”

Sua biógrafa também enxerga no racismo brasileiro a explicação – ou parte dela – para o pouco reconhecimento de Moacir. “Moacir Santos e Tom Jobim têm muitos pontos em comum, musicalmente falando. Ambos definiram seus traços musicais a partir de muito estudo, sobretudo dos clássicos, e se miraram nos mesmos mestres. Ambos definiram marcos na história da música brasileira e valorizavam sua própria trajetória. Além disso, os dois eram profundamente ligados à natureza”, compara Andrea Ernest Dias. “Mas apesar de terem a mesma profissão e serem reconhecidos no meio musical como grandes compositores, vieram de mundos socialmente muito distintos. Um era negro, órfão, de origem pobre, nascido no sertão, o outro um jovem branco de classe média nascido em uma capital cultural, com maiores oportunidades de colocação no mercado. Moacir sofreu racismo, e o combateu mostrando a sua música. Não consta que Tom Jobim tenha passado por situação semelhante. Em Tom Jobim, ressalvadas as dificuldades naturais da vida de um compositor, houve um investimento do mercado em sua carreira, impulsionado principalmente pela internacionalização da bossa nova e sua batida. Moacir precisou, ele mesmo, investir na sua, buscando seus espaços ao longo de sua vida. Some-se a isso, talvez, a difícil compreensão de seus padrões rítmicos, não tão acessíveis aos estrangeiros. Passados 60 anos do ‘Coisas’ e 24 anos do ‘Ouro Negro’, ainda precisamos falar muito de Moacir Santos.”

É preciso falar. “Coisas” completou 60 anos em agosto de 2025. Moacir, por sua vez, completaria 100 anos em 26 de julho de 2026. Há ainda muito trabalho a ser feito por seu merecido reconhecimento.

*Esse texto foi publicado originalmente no portal Jazzify, em 2025

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